quarta-feira, 6 de maio de 2015

Relato de viagem: Antártica

O post de hoje é uma colaboração do nosso amigo James Vaccari, que fez uma viagem incrível para a Antártica com a Marinha do Brasil. Esperamos que gostem deste relato!

Qualquer pessoa com boa vontade e algo em torno de 8 mil dólares pode fazer um passeio até a Antártica partindo de Punta Arenas, no Chile. Qualquer pessoa também pode voluntariar-se para trabalhar na tripulação de algum navio que vá para lá. Algumas pessoas podem comprar um veleiro, aprender a navegar e ir por conta própria, como Amyr Klink. Ou pagar por um vôo para as estações que têm aeroportos. Mas o que vou contar aqui é um caminho alternativo, que depende de um monte de fatores até que isso seja possível: ir como alpinista voluntário a serviço da Marinha do Brasil. E aí você deve se perguntar: o que um alpinista, trabalhando para a marinha, faz? Escala mastro? Quase isso.

Estação Antártica Comandante Ferraz






Em resumo: O Brasil é um dos 29 países membros consultivos do Tratado Antártico. Como membro, deve zelar pela preservação da Antártica e prover pesquisas científicas relevantes. Para que essas pesquisas ocorram, foi criada há mais de 30 anos, a Estação Antártica Comandante Ferraz, que apesar de mantida pela Marinha do Brasil, não tem fins militares. A marinha é apenas o braço logístico do Brasil, com apoio da Aeronáutica. As pesquisas são realizadas por diversos grupos de universidades brasileiras, através do Ministério de Ciência e Tecnologia. São projetos relacionados a biologia, oceanografia, meteorologia, geologia, arqueologia, glaciologia, entre outros, que direta ou indiretamente tem impacto no Brasil. Outras parcerias são firmadas para que o Programa Antártico Brasileiro funcione, como a Vale fornecendo projetos de energia sustentável, a Petrobrás fornecendo combustível para a FAB e para os navios, e o Clube Alpino Paulista, prestando consultoria técnica e indicando alpinistas para o auxílio e segurança desses grupos de pesquisa e militares em terreno de neve e gelo.

Aí que eu entrei.

Por esse caminho, “basta” ter experiência de alguns anos de escalada, conhecimentos de resgate, primeiros-socorros, fazer um treinamento específico com a Marinha, passar em avaliações do Clube, da Marinha, exames médicos etc. Com todos estes fatores favoráveis, um esquema logístico é traçado, para que o alpinista auxilie um projeto de pesquisa específico, ou vários projetos na região da Estação, que fica nas ilhas Shetland do Sul, mais precisamente na Baía do Almirantado, na Ilha Rei George.




O roteiro de viagem é o seguinte: Fui de São Paulo para o Rio de Janeiro. Lá peguei um avião C-130 da FAB modificado para transporte de carga e fui até Pelotas - RS. Em Pelotas, recebi as roupas especiais e equipamentos. Eles ficam armazenados na ESANTAR Rio Grande, um espaço que a Marinha tem em convênio com a Faculdade de Rio Grande para armazenar os materiais usados no programa Antártico, tais como roupas térmicas, impermeáveis, barracas, botas etc. Todo ano, tudo é limpo e revisado. Um trabalhão.

De lá, o avião segue para Punta Arenas, no Chile, onde aguarda condições meteorológicas ideais para o pouso final no aeroporto da Estação Chilena Eduardo Frei, já na Antártica. Punta Arenas é uma cidade tranquila, plana, venta o tempo todo, tem uma zona franca que tem preços razoáveis, e se tiver um tempo, vale a pena fazer uma caminhada até Reserva Nacional Magallanes.

Depois que São Pedro liberou o voo, segui para a estação Chilena e de lá, um dos navios de apoio da Marinha nos envia um bote a motor para nos levar a bordo.



Fiquei um tempo ali na margem ajudando os mergulhadores responsáveis pelo bote (como se precisassem de ajuda), e em menos de meia hora vi os primeiros pinguins, e um pouco do que a Antártica era capaz. A maré subiu, o tempo virou e quase não deu tempo de embarcar todo mundo. Foram 3 ou 4 bate-voltas até o navio e por pouco teve gente que teve que dormir na base Chilena. Devidamente embarcados navegamos por 3 ou 4 horas até a estação brasileira. Parte dos militares e pesquisadores, vão de navio desde Punta Arenas, fazendo a emocionante travessia do Drake até a Estação, uma chacoalhante travessia de 3 dias.

O meu trabalho como alpinista lá era basicamente auxiliar os grupos de pesquisa que saíam da estação para fazer alguma coleta na região, cuidando da segurança de todos. E quando o tempo não permitia, era a vez de auxiliar nos trabalhos de manutenção da estação: limpeza, cozinha, e todo tipo de tarefa que envolve o dia a dia de uma casa com 60 pessoas.



Troquei um apetrecho no alto de uma antena de rádio. Foram horas balançando ao vento tentando soltar parafusos congelados. Pintei o mastro da bandeira (tarefa tradicional destinada a todo alpinista que vai lá). Acompanhei a operação de um ROV (veículo submarino operado remotamente) que vasculhava o fundo do mar. Caminhei à procura de ninhos de aves pelas montanhas. Apoiei o pessoal que pesquisava pinguins. Ajudei a carregar MUITAS caixas de cargas, chamadas marfinites. Ajudei a procurar algas pela costa. Visitei a base Polonesa de Arctovski, que nos abrigou quando o tempo virou. Fiz faxina de montão.



Fiquei 71 dias na Estação, e com certeza foi uma das experiências mais interessantes da minha vida. Vi milhares de pinguins, senti o cheiro deles (essa parte não é tão boa), vi focas, leões marinhos, peixes que só existem lá, aves diversas, vi pôr do sol às 23h e o nascer às 2h da manhã, paisagens incríveis, de tirar o fôlego, de congelar o fôlego...





Conheci pessoas dos mais diversos tipos, vi cientista PHD lavar banheiro, vi Comandante da Marinha lavar prato, vi o sorriso de senhores, marceneiros e pintores, que nunca tinham visto neve na vida, escalando montanhas comigo, vi jovens empenhados em estudar e tentando fazer algo por um Brasil melhor. Todos iguais, sob as mesmas condições difíceis, isolados de suas famílias, de seus amigos, mas vivendo como uma família, com respeito, igualdade e união.

Infelizmente voltei de lá um mês antes do incêndio que destruiu a Estação e vitimou dois militares, dois amigos. Mas voltei com a certeza de que, se depender dos brasileiros que trabalham nesse Programa, a Antártica estará em boas mãos por mais uns anos, para que nossos descendentes possam conhecer.




FAQ

1. Faz muito frio?
R: Sim. Pode fazer muito frio... Mas no verão antártico, entre outubro e abril, que é quando as pesquisas acontecem, as temperaturas ficam em torno de -4 e 10C. Já no inverno, quando só os militares que fazem a manutenção da Estação ficam lá, pode chegar a -20C. Aí sim é frio! E se estiver ventando, a sensação térmica pode ser de -40C, -60C.

2. Me traz um pinguim?
R: Não! Primeiro que ele automaticamente deixa de ser fofinho quando você sente o cheiro de peixe dele. Segundo que existem uma série de normas e licenças para se poder pegar um pinguim, ou qualquer animal lá. Existem áreas que você nem pode ir sem licença. O Ministério do Meio Ambiente fiscaliza, os militares fiscalizam, os cientistas fiscalizam, qualquer outra pessoa de qualquer outro país do Tratado fiscaliza e pode denunciar um crime ambiental. E se isso ocorre, o país é que tem que responder perante a comunidade internacional. Você não imagina o tamanho da treta. Tudo é feito pra preservar o meio ambiente.

3. Eu não sou alpinista, nem militar, nem pesquisador, como faço pra ir?
R: Existem companhias de turismo que promovem cruzeiros pra lá, saindo de Punta Arenas, Ushuaia. Mas é importante você saber que NADA garante que você vá pisar em solo Antártico. O clima muda muito depressa e é possível que o comandante do navio dê meia volta, não importa quanto dinheiro você tenha. Ali, a segurança tem que vir em primeiro lugar, bem como a segurança de tudo que tem lá. Se você for, não toque nos animais, não dê comida, não pise onde não puder pisar, não faça barulho, não fume, não tire selfie com a foca-leopardo (ela pode morder seu celular, sua mão, seu braço...)

4. Tem urso polar? Tem pirâmides escondidas? Tem vestígio de E.T.?
R: Urso polar não. Outras coisas, eu não vi...


James Vaccari é diretor de arte e designer enquanto não viaja. Quando está viajando se mete a fotografar o que vê e a desenhar uma coisa ou outra. Prefere viajar pra onde as pessoas normais se preocupariam com banho e banheiro, e gosta de andar muito. Também é instrutor de montanhismo e escalada.


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6 comentários:

  1. Eu acompanhei algumas postagens que o James fazia no Facebook na época e, sem fazer ideia de uma história legal dessas, já imaginava a aventura e a experiência que esse rapaz ia ter.
    O que eu admiro no James é a coragem, o foco, o desapego e a falta de frescura que ele tem, por isso viaja, aprende, respeita e vive!

    Parabéns James, pelo trabalho, pela história. Aprendi um pouco mais lendo isso aqui! :)

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    1. Obrigado pelas palavras gentis Marquinho!
      O foco é esse mesmo, ter histórias pra contar.
      Abraço.

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  2. O tempo em que tive o privilégio de conviver com o James somente fez constatar as qualidades pessoais e profissionais. Sua ajuda foi primordial para manutenção das pesquisas e na preparação da E AC para a visita do Ministro da Defesa. Além de ser um desenhista e tanto e um bom amigo. Abs e sucesso.

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    1. Obrigado Comandante Coimbra! Foi uma grande honra.

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  3. Que ano James foi pra lá?
    Tava querendo usar em um trabalho escolar a viagem

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    1. Olá, ele foi pra Antártica no início de 2012!

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